Mychel Renato Lima nos acompanha na oficina de literatura desde o começo de 2009, sua presença nos encontros nos permitiu refletir um pouco mais acerca da realidade social, econômica e política do nosso país. Seus textos são engajados e, por ora, pungentes, levando-nos a pensar sobre o que a sociedade brasileira está fazendo neste século 21. Tal estilo é reflexo de suas leituras, sempre com um tom bastante crítico.
Mychel nasceu no interior do Paraná, na cidade de Paraná do Oeste. Como ele mesmo afirma, lê tudo que lhe chega às mãos, hábito que possui desde os dez anos. Criança com poucos amigos, fez dos livros seus grandes companheiros de vida, começando pelos clássicos da literatura. Entre seus "autores fundamentais" estão Aldous Huxley, Henry Miller e Machado de Assis.
A dissertação de Lima acerca da obra O Povo Brasileiro, do autor mineiro Darcy Ribeiro, nos fez discutir questões contundentes acerca do que o Brasil enfrentou e enfrenta em termos de relações sociais, políticas e econômicas.
Ribeiro, formado em Antropologia, dedicou seus primeiros anos de vida profissional ao estudo dos índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia, entre os anos de 1946 e 1956. Dedicou-se, ainda, à educação primária e superior, criando a Universidade de Brasília, da qual foi o primeiro reitor. Foi ministro da Educação, no Gabinete Hermes Lima e, também, Ministro Chefe da Casa Civil no governo de João Goulart.

Suas idéias romperam fronteiras, em especial na obra em destaque, mostrando como se deu a miscigenação brasileira desde a colonização do país pelos portugueses. Mychel destaca alguns fragmentos de O Povo Brasileiro que merecem ser pensados e repensados:
A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, porém, provocando crescente indignação, nos dará forças, amanhã, para conter os processos e criar aqui uma sociedade solidária.
Ribeiro divide o livro em quatro partes nas quais discute, respectivamente, as etnias que iniciaram a nação (Novo Mundo), a miscigenação (Gestação Étnica), o impacto que a nação brasileira sofreu em busca de uma identidade nacional frente às guerras, industrialização, imigração e crises mundiais (Processo Sócio Cultural), os esteriótipos criados sobre as condições de vida em cada região do país (Brasis). Finalmente, "toca, corajosamente, na ferida do destino nacional: em nome da ganância de uns poucos, sacrifica-se o bem estar coletivo [...]".
Esta obra imperdível nos foi dada para ser apreciada e lentamente degustada. Pensemos a respeito: por que nunca foi lida nas escolas? Por que nunca fez parte de leitura obrigatória nas bibliotecas estudantis? Os governos desejam realmente que reflitamos a respeito? Estas questões são contundentes.
Mychel finaliza sua apresentação com uma citação de Darcy que, de fato, dispensa comentários:
Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.
Referências:
RIBERIO, Darcy. O Povo Brasileiro. A formação e o Sentido do Brasil. São Paulo. Companhia das Letras, 2ª edição, 1995.